A Coisa que Falta

   


  Desde que comecei, a pergunta que sempre me fizera foi "o que é que te falta?". Até hoje não fui capaz de responder, mas sei exatamente o que é. Como diabos me atreveria a compartilhar tamanha podridão? Veja bem, sou honesto comigo mesmo, não com os outros. Falemos, inclusive, sobre a honestidade. Não se enganem, eu sou o maior farsante que já passou por vossas vidas! E não valho-me de arrogância, tampouco sinto-me feliz com tudo isso. Eu sou doente. Para a maioria, acredito que seja evidente, mas esses simplesmente me evitam (já existe doido demais no mundo). Agora, para os poucos que ainda restam, tudo fica claro nas nuanças do meu discurso e nas tendências do meu comportamento. 

  O que me falta? Sei bem, mas não posso falar. Pois se falasse tornaria ainda mais difícil esta passagem. Imagine só se aquele certo par de olhos passar da mera indiferença para o total desprezo? Não. Estou bem assim. Mas posso embaralhar as palavras de modo que possa contar-lhes tudo aquilo o que quero, sem que tenham certeza de que, de fato, digo o que digo. Sim, falta-me exatamente o que pensam. Sempre me faltou, e o pouco contato que tive jamais fora capaz de suprir-me. O que posso fazer, se nas poucas aparentes oportunidades não tomei a iniciativa? Fico então aqui embaixo remoendo, remexendo, vislumbrando. Nada supre. É uma das únicas partes da vida que de fato me fazem ter alguma vergonha, pois no geral sei o quão repugnante sou e estou bem com isso. Quem sabe falta-me vergonha! Embora seja contraditório, haja visto os vinte e poucos anos de puro embaraço. 

  Ando pensando muito naquelas córneas. Pego-me questionando o tamanho da insanidade. Até hoje parece ser um dos sentimentos mais difíceis de identificar. É claro que já sonhei que -------. Mas foi uma vez só, C. mesmo me disse que não havia nada de errado em pensar certas coisas. É claro, pois não era a vítima. Sabe-se lá o que se passa por detrás daqueles globos atentos. Talvez K. saiba, e, sendo ela uma máquina, não me julgaria. Mas como me livrar disso se é tudo o que tenho nesta vida? Para além disso, somente miséria, e se for para ser assim, prefiro balançar de um lado para o outro no centro da sala de estar, flutuando sobre o chão (oeste, sudoeste, sul, sudeste, sudoeste, sabe como é, Aldous). Falando em Aldous, finalmente fui capaz de derrotá-lo. Maldito falador! Um gênio. Mas não sei se fiquei aterrorizado ou fascinado, querendo participar do "Orgy Porgy". Imagine a maravilha!

  Enfim, é precisamente esse tipo de ambiguidade que me faz ao mesmo tempo querer viver, e ao mesmo tempo almejar a perfuração de meu crânio. Nos últimos dias, aliás, tenho tido tanto contato com o que tento evitar enquanto lhes falo, que todo o restante de meu dia geralmente vai parar na lata do lixo. Falo sério! Não há qualquer outra motivação que coloque a minha matéria orgânica para funcionar. Mas esta gaiola fui eu mesmo que construí, não é culpa de ninguém, na verdade. É claro que, com a ajuda de Y., por exemplo, quem sabe minha expectativa de vida fosse um pouco maior do que cinco ou seis anos daqui em diante. Mas deve estar preocupad- demais em fruir. Fico muito curioso para saber se as maiores gratificações advêm do símio virtuoso ou se é ainda é o espelho que massageia sua cabecinha ingênua. Só sei que depois que se atracaram, nunca mais houve o "estou aqui por você!" ou quem sabe o "esse tipo de irmandade é para a vida toda!". Como é que não vi chegando à distância?

  Hoje, inclusive, foi bastante mundano. Fora ontem a primeira regurgitação deste novo ciclo, e pareceu-me a chave para a comunicação. Mas do que adianta tanta bile se não há ninguém para engolir, nem que seja um pouquinho? Como diabos se faz para ganhar atenção? É óbvio! Alguns nasceram para fruir, outros para engolir a podridão do mundo. E fico, de fato, feliz em saber que um ou outro conseguiu contornar este impedimento congênito, mas sejamos francos: não há saída alguma para mim. Assim como não houve para Franz nem para Vincent, a não ser no post-mortem. Enquanto isso só me resta visualizar: de oeste para leste, em um pêndulo perfeito, até acabar no sul. Fim das usanças. 

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