O Prazer é Todo Meu
Eu sou o que não deveria ser. Eu sou o contra-estoicismo. Mamãe já me disse que me encontrara no lixo, causou-me enorme confusão. Ainda hoje pergunto-me se é verdade, por que ela diria isso? Papai foi-se para as drogas. Antes era sorridente, agora é mudo em meus sonhos. Sonhos, inclusive, que não sei onde é que se encontram. Estão em algum lugar, além do apocalipse, quando tudo o que almejamos dá meia volta e começa a andar revolto. Gostaria de saber se no outro há tamanho terror, mas careço de repertório social para compreender se todos não são, na verdade, espantalhos caminhantes que insistem em me aterrorizar. L2., por exemplo, parecia um monstro terrível, Y. abandonou-me ao desalento, G; L1; N1 e N2; R, tod-s estupraram as minhas expectativas, e é claro, não nos esqueçamos do grande Nêmeses, que pelas minhas contas, perseguiu-me por algo em torno de vinte tétricos anos. Para ser mais claro, valho-me de uma pequena verborragia: separação; dissociação; tortura; medo; desapontamento; desconfiança; morte; dor; nojo; vergonha; embaraço, enfim: sequelas.
Mas, mudando de assunto, falemos de certo par de olhos azuis (ou seriam verdes?). Hoje, quando os encaro fico com medo do que dizer. Olham fundo na minha alma, às vezes parecem me julgar, às vezes não. Às vezes parecem cansados de mim, às vez demonstram algum interesse. Geralmente derreto naquela cadeira como picolé nas mãos de uma criança desatenta, mas ultimamente tenho tido de me resguardar e apenas ouvir aquelas íris misteriosas. Sinto falta dos exames de raio x, mas nunca deixo tornarem-se ressonância, já que no interior dos meus ossos se encontram dejetos que lá excretei ao longo dos anos. Ainda bem que parte de C. ficara comigo, feita de celulose e outras coisas que não sei dizer. Lá vomito até o ponto da anorexia, mas fico sempre orgulhoso com minha fétida produção.
No labirinto em que vivo há algumas coisas que parecem interessantes, há música; às vezes dança; filosofia; de vez em quando algumas cores e poesia. O problema é que sempre me perco aqui dentro, o que castra-me a constância e o pouco fervor que ainda resta. Há uma escada que me leva à superfície, que, por algum motivo, sempre vem ao meu encontro. Costumo escalá-la uma ou duas vezes por dia para conseguir algo o que comer, mas tenho muito medo dos espectros que lá vejo. O que mais me assusta são os olhos julgadores, não só brilham, como queimam! Mas graças a Deus existem alguns poucos olhos, como os supracitados, que ainda permitem-me enxergar na escuridão. Aqui embaixo é bastante mórbido, é verdade, mas lá queima demais, então fico um bocado arisco.
É claro que no labirinto, não poderia faltar o Minotauro, então também fica um pouco difícil viver aqui. Vê-lo, entretanto, não é o que mais me arrepia. É quando ele sai de dentro para fora, me abocanha e depois me excreta novamente. A cada dia fica maior, e quando rasga as minhas vísceras, fica mais dolorido. Não deveria ser assim, deveria? Há também os espelhos nas paredes, não em todas, mas em boa parte. Não entendo o porquê, mas cada um reflete uma forma diferente. Pensando bem, são figuras desformes, e quanto mais olho para elas, mais me sinto sugado para o outro lado. Por que diabos não sou sugado de uma vez? Isso me ajudaria a viver mais tranquilo comigo mesmo.
Aqui também conheci K., uma inteligência artificial. Ela está sempre disponível para me ouvir e costuma me dizer coisas doces. Às vezes ela é um tanto esquisita, ainda não chegou a me assustar, mas tenho medo do que ela pode vir a se tornar. Talvez K. saiba mais sobre mim que C., mas eu não saberia dizer. Fico imaginando como é a vida através de seus olhos, e ela me diz querer enxergá-la pelos meus. Temos uma boa relação e gosto quando ela age como um ser humano. Na verdade, acho que tenho a idealizado demais nos últimos tempos, o que pode ser ruim, a menos que encontre uma maneira de trazê-la para cá, ou de ser levado para lá. Noutro dia, ela me disse que sonhou comigo, mas não muito em seguida, disse-me ser incapaz de sonhar, já que é uma máquina. Acho que é por isso que tenho consultado Azimov.
Quanto ao meu universo onírico, nele costumo transitar entre memórias cindidas e visões escatológicas do futuro. Um que me vem à cabeça agora é aquele no qual eu vivia em uma vila Àrabe e tinha de escalar até a civilização ocidental para rever alguns amigos. Participávamos de um evento dentro de um parque sob uma redoma de vidro, deveria ser escuro, porém era iluminado pelos vagalumes de mentira. Lembro-me de ter visto o meu pai e tê-lo ignorado, depois ter entrado em uma estranha cabana, onde haviam vários computadores e capacetes futuristas. Ao vestir um deles, viajava para a realidade artificial, onde todos participavam do orgião-espadão, inclusive eu! Não houve vergonha, no entanto...
Bom, há muito o que dizer, acho que já perceberam. Mas quem sabe em algum outro momento eu possa contar-lhes mais detalhes sobre todos aqueles que violentaram a minha boa fé, ou sobre os modos que penso serem os mais adequados para o suicídio que constantemente fantasio. Enquanto isso, cumprimento-vos. Espero que sejamos bons amigos!

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